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sábado, 8 de março de 2014

Porque não exigir que todos os políticos usem transporte público?

Edson Kenji Kondo
8 de março de 2014

Outro dia vi um carro oficial preto, imponente, chapa oficial, trafegando por Brasília. Obviamente, dezenas ou talvez centenas deles estejam trafegando por aí todos os dias. Na minha cabeça martelava a seguinte pergunta. Essas autoridades estão aí para servir ao povo ou para explorar o povo? Se elas estivessem trabalhando no governo para servir, o que elas mais necessitariam fazer? Certamente, seria compreender as dificuldades e necessidades do povo. Se a autoridade tem um carro luxuoso à sua disposição, com motorista e ar-condicionado, quando essa autoridade vai poder compartilhar dos desafios enfrentados pelo cidadão normal, no trânsito difícil e perigoso, no transporte público que não funciona, que atrasa, que quebra e não compensa o passageiro?
Por que insistimos em permitir esses privilégios que apenas isolam as pessoas em torres de marfim, e comprometem a capacidade delas de compreender os desafios enfrentados pelo povo e agir para resolver? Por que continuamos a permitir que se construam paredes caras, reais ou virtuais, em volta desses funcionarios governamentais com o nosso próprio imposto? Embora seja de 2010, o seguinte artigo de Eduardo Militão no site Voto Zero dá uma boa ideia inicial desses privilégios.
Parece até que essas paredes erguidas pelos privilégios servem para proteger as "autoridades" do mundo ameaçador dos mais pobres contra os quais elas possuem graves preconceitos que justificam seu ato de segregação. Essas paredes também existem no setor privado, como por exemplo aquelas bem visíveis que circundam os condomínios fechados. Um exemplo de um outro tipo de parede é o título, como os diplomas universitários, que separam os "educados" dos "não-educados".
O exemplo mais patente dessas paredes de segregação é a parede real erguida na fronteira entre os E.U.A. e o México numa extensão de milhares de quilômetros para barrar a entrada dos mexicanos que apenas querem mais oportunidades de trabalho.
Esses privilégios permitem que essas pessoas vivam praticamente alienadas da sociedade. O principal problema é que esses privilégios isolam essas "autoridades" dos problemas reais da sociedade. O transporte público é um exemplo. Você já experimentou o drama de acordar cedo, esperar no ponto de ônibus, e ver o único ônibus que lhe permitiria chegar em tempo ao trabalho passar direto por estar superlotado? Ou ter de pagar uma van pirata para poder chegar ao trabalho nos dias de greve dos motoristas de ônibus? Ou de ter de viajar longas distâncias em pé no ônibus lotado com o motorista perigosamente fazendo curvas e trafegando acima da velocidade permitida?
Fonte: Charges e caricaturas do Amarildo
Para ganhar uma eleição, o político precisa apenas mentir bem o suficiente para convencer os cidadãos de que ele conhece os problemas e irá solucioná-los caso seja eleito. Mas faltam incentivos ao político para efetivamente solucionar esses problemas. Com a aprovação de uma lei que obrigasse o político e toda autoridade governamental a se utilizar do transporte público, finalmente, os políticos teriam o real incentivo de eliminar esses problemas.
É claro que precisamos ter o cuidado para que essa iniciativa não se transforme numa "ditadura" travestida de igualitarismo. Uma das grandes virtudes da democracia é a liberdade de escolha. Não há como construirmos uma sociedade melhor violando princípios basilares da democracia. Assim, precisamos ser cuidadosos para propor mudanças que ocorram na atitude e hábitos dos políticos pelo livre arbítrio. Nesse sentido, a transparência é efetivamente o mais poderoso dos instrumentos de políticas públicas. Assim, mesmo que se estabeleça por lei (pois do contrário não haveria eficácia) uma obrigação ao político, a lei precisa permitir que exista um limite mínimo que seja de alguma maneira monitorado e divulgado à sociedade por um site da internet. Esse site, que precisa ser descomplicado, necessitaria ainda ser desenhado (podemos certamente construir uma proposta dessas), mas permitiria ao cidadão interessado acompanhar o índice de utilização dos serviços públicos pelos políticos e autoridades governamentais.

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